O que um velejador que deu a volta ao mundo pode nos ensinar sobre o confinamento?

Empresário conciliou trabalho on-line e viagem num barco à vela de 12m x 4m por sete anos

O empresário Silvio Ramos, de São Paulo, passou sete anos viajando em um veleiro ao redor do mundo e precisou aprender a lidar com os desafios do confinamento. Nesta entrevista ele conta um pouco da sua história e dá dicas úteis para enfrentar a quarentena imposta pela pandemia da Covid-19.

 

 

 

 

 

Durante sete anos o senhor viajou o mundo em um barco à vela conciliando com sua atividade profissional. O que o levou a tomar essa decisão?

Na verdade, eu nunca havia pensado em tal proeza. Uma volta ao mundo na vela é, de fato, uma aventura. Mas poderia citar algumas das principais razões que me levaram a conceber esse projeto. Primeiro, eu já estava em uma fase profissional e financeira bastante confortável e passava a maior parte do tempo controlando as empresas e finanças. Por questões de personalidade, não sou do tipo que fica muito tempo na mesma coisa, preciso de aventuras, correr riscos, tentar coisas novas. Além do mais tinha acabado de me divorciar, saindo de um casamento que já durava 24 anos, e meus filhos estavam em uma idade em que eu podia me ausentar por um tempo. A outra questão que ponderei foi que, felizmente, eu me encontrava em excelente condição física, mental e financeira. A outra situação foi completamente fortuita. Nas minhas férias em 2004, eu tinha alugado um veleiro em Granada, no Caribe, e saído com minha mulher para uma navegada de uns dez dias. Foi quando fiquei muito bem impressionado com a liberdade que se tem com um veleiro. Assim que voltei, comecei o projeto de escolher um veleiro, mandar construir, com alterações ao projeto original, e, no início de 2006, escolhi o barco e o estaleiro e mandei fazer o barco.

 

Como conseguia manter a rotina de trabalho e executar suas tarefas?

Para poder acomodar minha volta ao mundo, tive que me preparar, estudar muito entre 2005 e 2009, além de definir como iria me ausentar do trabalho como diretor-geral de uma multinacional americana na América Latina. Criei um método de trabalho à distância, treinei meu staff para trabalhar dessa forma e vendi aos meus superiores a ideia de fazer um sabático. Continuaria meu trabalho, do barco, ao custo de 60% da minha compensação. Como a empresa estava muito bem, eles concordaram e economizaram os 60%. Combinamos fazer isso por um ano, mas, no final, e com tudo dando certo, fiquei sete anos embarcado, cinco deles dando a volta ao mundo. Correspondia-me duas vezes por dia, por e-mails e, quando estávamos perto de terra, usando o Skype para fazer conferências. Uma vez por ano, porém, retornava de avião ao Brasil, reencontrava as pessoas e fazia os meus check-ups.

 

Quais os benefícios da experiência de confinamento?

Quando se vive a bordo, aprende-se a viver com menos, em menores espaços, a provisionar e usar somente o necessário. Nas grandes travessias oceânicas, podemos ficar até 20 dias, às vezes mais, sozinhos no meio do imenso mar, num espaço de 12 metros por 4 metros, onde as únicas coisas que vemos ou sentimos são a temperatura, o vento, as ondas, as nuvens, a chuva, o sol, a noite, as estrelas, alguns peixes e animais marinhos e, muito raramente, algum outro barco. O barco é a nossa casa e lá fazemos nossa comida, tomamos banho, dormimos, ou seja, tudo que fazemos na nossa casa em terra fazemos na nossa casa no mar, é só uma questão de se acostumar e se adaptar.

 

Que correlação o senhor faria entre o confinamento a que foi submetido durante essas viagens e a quarentena que estamos enfrentando durante a pandemia de Covid-19?

A vida a bordo é muito parecida com uma quarentena, pois nos dois casos ficamos confinados em algum lugar. Acredito que os sete anos que vivi a bordo me deram muita experiência em confinamentos, o que está também ajudando nessa situação da Covid-19. Adquirimos muita experiência em provisionar, lavar, guardar e conservar alimentos, reservar combustível, água e outras bebidas e nos entreter com pouco.

 

Que dicas o senhor daria para as pessoas que têm tido dificuldade de ficar em casa?

Como quase todos hoje temos internet em casa, entenda como sendo a hora de trabalhar aqueles projetos que nunca saíram do sonho, como escrever um livro, um diário, algumas mensagens para parentes e amigos, tentar novas receitas culinárias, assistir a muitos filmes e vídeos interessantes. Hoje eu tenho feito muitas reuniões virtuais, reunido a família, amigos, grupos de interesse mútuos, estudado e praticado um pouco de espiritualidade e o que mais me vem à cabeça.

 

Quais foram os principais desafios nesses anos?

Cortar o cordão umbilical com a terra creio que seja a pior tarefa nessa empreitada, assim como aprender a se desvencilhar das memórias, mas, depois de feito, a vida passa a ser mais leve e bem vivida, os dias ficam mais longos, o tempo nem parece passar, a saúde fica excelente, gastamos muito menos, entre outros benefícios. Já na volta à terra pensamos que a vida estava tão boa sem os problemas do dia a dia que até passamos a sentir saudades do tempo que vivíamos no mar. Retornei em definitivo em 2013, cinco anos após ter iniciado a volta ao mundo, também para dar mais atenção à saúde urológica. Hoje, com 71 anos, fora alguns problemas gerenciáveis, tenho excelente saúde, energia e disposição e tenho feito palestras e dado aulas de travessias oceânicas.

 

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