As consequências sociais, mentais e sexuais do confinamento

A psiquiatra Dra. Carmita Abdo aponta a síndrome de burnout como um dos efeitos para os médicos em regime intenso de trabalho

Quais estão sendo os impactos do isolamento social nas nossas vidas? A convivência 24h foi o primeiro desafio imposto a todos, segundo a psiquiatra Dra. Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da FMUSP. O médico, no front contra o coronavírus e seu convívio familiar, é outro aspecto a se considerar.

“A classe médica está vivendo um novo estresse pelo medo de se contaminar e contaminar os seus familiares, mas também pelo burnout, que acomete aqueles que estão trabalhando em regime intenso, sem trégua contra a Covid-19”, alerta. Dra. Carmita também chama a atenção para aspectos relevantes durante o confinamento como a importância de se administrar todo tempo supostamente livre. Confira a entrevista:

 

Portal da Urologia – Sabemos que grande parte das pessoas que formam núcleos familiares não estão habituadas a uma convivência tão próxima e prolongada. Como a senhora enxerga esse desafio?
Profª Dra. Carmita Abdo – De fato é um desafio, porque na vida moderna a convivência familiar é menos frequente e por tempo mais curto. Devido à pandemia, estamos aprendendo a passar juntos o dia inteiro, muito próximos, e com o agravante de não podermos ter contato físico. Essas condições, bastante paradoxais, nos deixaram mais ansiosos e as crises familiares começaram a se mostrar mais evidentes. Inclusive temos o exemplo da própria China, onde o número de divórcios cresceu com a pandemia e o confinamento. A convivência de pessoas que estão num equilíbrio emocional instável acaba sendo um risco de rompimentos e de situações até mais perigosas, como a violência doméstica. Por outro lado, para aqueles que souberem aproveitar, essa será uma grande oportunidade de consolidar vínculos. Por exemplo, quem têm filhos e reservou mais tempo para esse convívio. Essas crianças terão ganho com a maior proximidade dos pais; os casais sem filhos estão tendo momentos há muito almejados para escutar música juntos, assistir a filmes e séries, discutir projetos futuros. Tudo depende da saúde emocional que essas pessoas possuem. Além disso, nada impede que cada um comece a se avaliar, identificar e sanar as questões que estão interferindo na boa convivência.

 

Portal da Urologia – Que recomendações poderia nos dar para manter a serenidade e o equilíbrio?
Profª Dra. Carmita Abdo – Esse tempo supostamente livre, quando mal administrado, sem agenda estabelecida, traz à tona o medo que está permeando nosso dia a dia, medo esse que tem fundamento. Ausência de perspectiva da volta à vida normal em curto prazo e consequências econômicas negativas pelo confinamento trouxeram insegurança não só para cada um de nós, mas para as nações de uma forma geral. Se a cura ainda não existe, a prevenção é a única possibilidade, a qual não depende só de nós: você pode se cuidar, mas, se alguém do seu lado não se cuida, representa perigo para si, para você e para sua família. Tememos não só por nós, mas pelos nossos. Já ter vivenciado a morte de uma pessoa próxima aumenta nossa insegurança. Como viver tudo isso sem descompensar? O tempo ocioso é um grande inimigo. Vamos preenchê-lo com boa conversa por telefone ou WhatsApp, leitura, filmes… Seria muito bom também ter a opção de trabalhar em home office e corrigir alguns maus hábitos: a alimentação, o sono, o excesso de trabalho, a falta de convivência familiar. E retomar os projetos engavetados. Isso ajuda a não estagnar o pensamento na crise, no caos e na incerteza.

Portal da Urologia – Quais as recomendações especificamente para os médicos?
Profª Dra. Carmita Abdo – Alguns médicos têm evitado voltar para casa, optando por ficar em hotéis ou na residência de algum amigo que more só, tal é o receio de contaminar seus familiares. O aspecto negativo desse expediente é a distância da família. Ameniza um lado, mas complica o outro. Ninguém questiona que essa seja uma alternativa para o médico que está no front, convivendo com pacientes. Já para aqueles que não estão em contato direto com doentes confirmados ou pessoas sob suspeita, valem as regras de máximo cuidado ao chegar em casa: deixar os sapatos do lado de fora, colocar as roupas para lavar e tomar banho, a fim de tornar a convivência familiar mais segura. A classe médica está vivendo um novo estresse pelo medo de se contaminar e contaminar os seus familiares, mas também pelo burnout, que acomete aqueles que estão trabalhando em regime intenso, sem trégua contra a Covid-19.Recomendo que o médico se mantenha em constante autocuidado, inclusive e especialmente no plano emocional. E que exija equipamento de proteção individual para exercer seu trabalho com segurança.

Portal da Urologia – Quais seriam os sinais de alerta para a procura de um profissional especializado?
Profª Dra. Carmita Abdo – Muitas pessoas se deslocam aos postos de saúde imaginando estar com a Covid-19 porque sentem falta de ar, resultado de ansiedade extrema, que faz com não consigam sequer respirar direito. Há quem lave as mãos incessantemente e aqueles que negam o perigo e se expõem de forma ostensiva, ficam irritados, insones, abusam das bebidas alcoólicas, comem demais ou perdem o apetite. Esses são alguns dos sintomas mais frequentemente observados em pessoas que já romperam com o equilíbrio psíquico. Nesses casos, é aconselhável indicar uma avaliação especializada. O estresse pode evoluir para quadros mais estruturados de transtorno da ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares ou até dependência química. Tais quadros devem ser tratados para que não persistam, mesmo depois que a pandemia for controlada.

Portal da Urologia – Na sua opinião essa quarentena pode influenciar a vida sexual do brasileiro?
Profª Dra. Carmita Abdo – Não só a vida sexual, mas também os relacionamentos afetivos. A atividade sexual só não muda se as pessoas envolvidas têm certeza de que não estão contaminadas, doentes ou assintomáticas. Mas como raramente se tem essa certeza, recomendamos evitar contato com as secreções da orofaringe; portanto beijos não são recomendados, assim como ficar face a face. Além disso, ainda não se pode afirmar se o vírus está ou não presente em secreções como sêmen e fluido vaginal. Pelo sim, pelo não, o preservativo deve ser utilizado, especialmente se há dúvida da higidez dos parceiros. Como já se sabe que a Covid-19 está presente nas fezes, as práticas anais exigem o uso da camisinha. Temos observado pelos comentários nas redes sociais e na mídia que o número de adeptos ao sexo virtual aumentou, assim como a masturbação e o sexo com apetrechos e brinquedos sexuais. Apesar disso, os comentários são de que, para quem não está habituado, o sexo à distância não substitui a atividade presencial, o contato físico. Enquanto não há vacina ou medicamento comprovadamente eficazes, cautela é o melhor remédio, especialmente para relacionamentos eventuais ou namorados que residem em casas diferentes. Também é fundamental a higienização de todos os objetos utilizados na atividade sexual.

Portal da Urologia – Que ensinamentos podemos adquirir com essa experiência?
Profª Dra. Carmita Abdo – O confinamento evidenciou que podemos dispensar uma série de atividades do nosso cotidiano, enquanto outras que nos pareciam desnecessárias acabaram se mostrando fundamentais. Por exemplo, hoje reconhecemos como é importante ter liberdade para escolher aonde ir, o que fazer. As liberdades de locomoção e de aproximação física, antes tão naturais e agora tão restritas, estão sendo valorizadas e serão consideradas um privilégio por muito tempo, até que o confinamento se apague de nossa memória, deixando essa consciência no esquecimento. Outro aspecto é a percepção sobre o trabalho que muitos passaram a ter: não mais uma simples fonte de renda, porém de desenvolvimento pessoal e de prazer. Maior envolvimento dos pais com a educação das crianças é mais uma “dica” do confinamento.

Portal da Urologia – A senhora acha que o confinamento pode influenciar no comportamento das pessoas depois que a pandemia passar?
Profª Dra. Carmita Abdo – Quando uma ameaça ao contato físico se instala (assim foi com a Aids e com os outros vírus respiratórios), as pessoas ficam temorosas e passam a se distanciar para não se contaminarem. Com o tempo, ocorre um “afrouxamento” desse cuidado, mesmo antes de se obter uma solução, um remédio. Apesar do alto investimento que está sendo feito para se conseguir um tratamento efetivo e de boa tolerabilidade, as melhores previsões são de um ano a um ano e meio de espera. Nos próximos meses o relacionamento “blindado” será a alternativa possível. A pandemia não provocou afastamento social, mas físico. As redes sociais e os contatos remotos suprem nossa necessidade de troca de ideias. Boa parte da atividade profissional se desenvolve hoje em home office, podendo assim permanecer quando o confinamento acabar. Entretanto nos faltam recursos tecnológicos que compensem a distância física e restabeleçam a intimidade. Vamos atrás de invenções que superem esse limite ou a tendência ao isolamento (que já vinha ocorrendo) ganhou no coronavírus um aliado? Além disso, rituais de higiene atualmente preconizados em outros tempos pareceriam excessivos ou mesmo anômalos (lavar as mãos diversas vezes, higienizar objetos, embalagens de alimentos, maçanetas e celulares). Estão se tornando padrões de higiene. As marcas dessa pandemia e desse confinamento vão caracterizar nossos relacionamentos e nossos hábitos futuros. Curadas as feridas, restarão as cicatrizes, as quais, afinal de contas, são provas de vida!

 

 

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