Como a telemedicina pode auxiliar médicos e pacientes durante a pandemia de Covid-19

“Evoluímos muito na adoção de novas tecnologias robóticas, de exames, imagens, medicamentos. Contudo não evoluímos como sistema de saúde integrado e na melhoria da qualidade da informação digital. Isso nos levou à insustentabilidade do setor.”

Presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde analisa cenário atual e sugere mudanças

Dr. Luis Gustavo Gasparini Kiatake, presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, explica nesta entrevista ao Portal da Urologia como a telemedicina pode ser útil a médicos e pacientes. O especialista traça ainda um panorama do atual cenário brasileiro e aponta modificações necessárias para que a ferramenta possa ser adequadamente utilizada no País. Boa leitura!

Quais os benefícios da telemedicina nesta época de pandemia tanto para médicos quanto para pacientes?
Os benefícios são muito evidentes em uma situação de isolamento social: a possibilidade de um médico em quarentena poder atender, seja como especialista assessorando uma equipe assistencial em campo, seja diretamente ao paciente, em um esclarecimento de conduta inicial ou acompanhamento de um tratamento já iniciado. Ao paciente, a possibilidade de recorrer ao seu médico de confiança ou a um especialista sem a necessidade de deslocamento e o consequente contato social, especialmente se esse deslocamento seria direcionado a um hospital ou pronto atendimento, como é costumeiro, apesar de não indicado, em nossa sociedade.

Com a revogação da Resolução CFM nº 2.227/2018, voltou a vigorar a Resolução n° 1.643/2002. Que pontos principais precisam ser revistos nessa resolução na sua opinião?
A resolução de 2002 não detalha as diversas práticas possíveis da aplicação e nem as ferramentas e controles necessários para essa prática, e dessa forma não provê um ambiente de segurança jurídica e regulatória, fazendo com que não haja a expansão da adoção. Há questões importantes que precisam ficar definitivamente claras com relação à possibilidade do atendimento do médico diretamente ao paciente, assim como formas de viabilizar o devido registro e fornecimento das ordens médicas de forma que o paciente consiga dar continuidade ao seu tratamento, assim como nas questões trabalhistas. As prescrições medicamentosas precisam ser aceitas e dispensadas pelas farmácias, os pedidos de exames precisam ser aceitos pelos laboratórios, os atestados médicos precisam ser aceitos pelas empresas. Percebam que a questão extrapola a ação do CFM, tendo que envolver outros conselhos, agências e ministérios.

Como o senhor avalia o uso de tecnologia na medicina brasileira atualmente?
Evoluímos muito na adoção de novas tecnologias robóticas, de exames, imagens, medicamentos. Contudo não evoluímos como sistema de saúde integrado e na melhoria da qualidade da informação digital. Isso nos levou à insustentabilidade do setor. Sabemos que agora é fundamental a promoção de saúde frente ao tratamento das doenças, e não há forma de se implementar esses programas sem a gestão e acompanhamento das condições de saúde, tanto quanto mudando a forma de remuneração que inclua avaliação do desfecho. Como fazer isso em escala sem a coleta e a análise de dados? Se um plano de saúde propõe um novo pacote a um determinado valor, como o prestador irá criticar se não tiver dados históricos? Convenhamos que, muito mais que as operadoras, quem deveria ter essa informação seriam os prestadores. Se você tem dificuldade em responder a essas questões, está respondendo qual o nível de maturidade da informatização da saúde. É absolutamente inconcebível que um prestador tenha que fazer as consultas de elegibilidade manualmente por meio de um atendente entrando nos portais das operadoras, sendo que há décadas usamos aplicativos de consulta de preços que interagem com dezenas de fornecedores em instantes. Temos um imenso desperdício com a repetição desnecessária de exames. Ainda existem prescrições e pedidos de exames ininteligíveis. Não conseguimos levar nossos dados digitais de um laboratório para um local unificado para conseguirmos ver uma curva histórica única. Enfim, há muitos pontos a serem melhorados, incluindo questões muito simples a outras bem complexas. Precisamos de um planejamento de saúde digital que inclua o público e o privado.

No Brasil a telemedicina não vem sendo utilizada em larga escala no SUS. Como ela poderia ser usada agora em meio à pandemia? Que mudanças deveriam ser implementadas?
Acredito que o SUS tenha bons exemplos do uso de telemedicina. Tivemos implantado projetos da Telessaúde Brasil que criaram núcleos referência, principalmente em telelaudos como segunda opinião, com melhores desfechos clínicos e evidências de economias consideráveis aos municípios poupando encaminhamentos desnecessários. Os deslocamentos de pacientes debilitados do interior para regiões metropolitanas para fazer um acompanhamento de tratamento é muito desgastante para o paciente e custoso para o estado. Essas experiências públicas não ganharam muita visibilidade. Mas as mais recentes experiências privadas têm mudado esse cenário, demonstrando inclusive o aumento da qualidade da assistência prestada em localidades remotas assistidas por especialistas. Especificamente com relação à pandemia do novo coronavírus, é inegável que deixa de ser uma questão de como a teleassistência ajuda, mas ela se torna o meio de viabilizar a assistência. Em primeira medida de escala está a possibilidade de triagem, evitando o deslocamento de massas de pessoas que com uma gripe se deslocam ao hospital e voltam com a Covid-19. Depois, o acompanhamento ainda dos testados positivos, para que se desloquem somente em situações necessárias. Naturalmente os aplicativos de triagem ajudam, mas convenhamos que em situação de saúde e de pânico, e enquanto os robôs/bots não estão bem evoluídos, nada melhor do que uma assistência humana. E aí não falamos somente de médicos, mas de todos os profissionais de saúde. Para essa viabilização precisamos de mudanças regulatórias, de ferramentas tecnológicas e muito treinamento, educação, conscientização. Podemos fazer agora emergencialmente, mas a teleassistência é uma prática de saúde, precisa ser aprendida nas universidades, tanto quanto as técnicas cirúrgicas.

 

Após a pandemia, o que precisaria ser feito para que a telemedicina continuasse?
Continuasse não, mas para que continue! Precisamos de um marco legal e regulatório; de uma política, uma estratégia, um plano nacional, que envolva a capacitação dos profissionais com o envolvimento do MEC; o incentivo à pesquisa e desenvolvimento com o envolvimento da Capes e CNPq; a preparação e fomento dos fornecedores de tecnologia, incluindo as startups, desenvolvendo soluções com qualidade, padrões, segurança; a inclusão dessa modalidade como opção no SUS e saúde suplementar; a conscientização dos pacientes.

Na sua opinião medicina e informática são verdades transitórias? Por quê?
Nesse momento, são verdades absolutamente efêmeras, pois estamos trabalhando arduamente nas questões regulatórias, as quais podem mudar de um dia para o outro. Mas, pensando fora da crise, continua sendo, já que a evolução tecnológica traz opções inimagináveis, quando não nos impõe mudanças sociais drásticas.

Quais os limites da telemedicina?
O da humanidade. A teleassistência é capaz de aproximar pessoas, mas, se desprovida de humanização e sentimento, será como somente mais um equipamento médico. Quem pilota a telemedicina precisa dessa habilidade/competência.

Como deve ser a remuneração por essa prática?
Estamos falando em uma mudança mais radical na remuneração, que seja pelo cuidado e promoção de saúde de uma população. A telemedicina se encaixa como um facilitador desse processo. Pensando de forma menos abrangente, o que se espera de um telelaudo é o laudo. De uma teleassistência, da assistência. É o tempo e a expertise do profissional que é remunerado. A teleassistência permite que isso aconteça de forma muito mais eficiente e ampla. O mercado se amplifica muito sem as barreiras físicas, principalmente em um país tão grande como o Brasil. Mais oportunidades para todos, especialmente para os melhores profissionais.

As operadoras e a ANS estão acompanhando essa necessidade e provisionando como será a remuneração?
Sem dúvidas esse assunto é discutido, mas como parte de um programa de mudança de remuneração que incorpore a promoção de saúde, o pagamento pelo desempenho. Contudo não adianta avançar na questão da remuneração se não temos a possibilidade regulatória. Sem isso a ANS não pode se posicionar, e o que vemos são iniciativas pontuais de algumas instituições.

 

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