Infectologista orienta sobre coronavírus

Especialista ressalta que médicos precisam ficar alertas quanto à possibilidade de síndrome gripal por influenza, que apresenta letalidade superior à infecção pelo Covid-19

Infectologista do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS), Dr. André Luiz Machado da Silva fala nesta entrevista ao SBU On-line sobre o Covid-19 e quais as recomendações atuais para se evitar o contágio.

SBU On-line – O que é o coronavírus e quando foi descoberto? Já existe um CID específico para a doença?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Coronavírus é um vírus RNA que foi isolado em 1965 do trato respiratório de um menino que apresentava um resfriado comum. Até então esse vírus não estava relacionado a nenhum vírus humano conhecido. Coronavírus compõe uma grande família de vírus que infectam mamíferos e pássaros, causando uma ampla variedade de doenças. Todos os coronavírus humanos são patógenos primariamente respiratórios e podem causar desde um resfriado comum até síndromes respiratórias graves, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS, do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome) e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, do inglês Middle East Respiratory Syndrome). Os vírus foram denominados SARS-Cov e MERS-Cov, respectivamente. O novo coronavírus foi oficialmente nomeado Covid-19 (coronavirus disease 2019) e trata-se de uma nova variante do coronavírus, até então não identificada em humanos. Já há um CID específico para esse vírus: U07.1.

SBU On-line – Quais seriam as principais causas do seu surgimento apontadas pela ciência até o momento?

Dr. André Luiz Machado da Silva – A origem do surto atual de coronavírus não está completamente elucidada. O Covid-19 é um betacoronavírus, como SARS-Cov e MERS-Cov, e todos os três têm sua origem em morcegos. Muitos dos casos diagnosticados no epicentro da epidemia, na cidade chinesa de Wuhan, capital da provincial de Hubei, tinham vínculo epidemiológico com um mercado público de frutos do mar e animais vivos. Na sequência do surgimento de novos casos, ficou caracterizado que muitos pacientes não tiveram contato com animais vivos, demonstrando a transmissão pessoa-pessoa do Covid-19.

SBU On-line – Como se transmite e quais são os sintomas? Quanto tempo o vírus fica viável fora do organismo? É possível se contaminar por meio de uma superfície inerte ou de animais de estimação?

Dr. André Luiz Machado da Silva – A transmissão ocorre de pessoa-pessoa através do contato, pelo ar, com secreções respiratórias do paciente infectado. Os principais sintomas são febre, tosse e dificuldade para respirar e surgem de 2 a 14 dias após o contágio. Não se sabe ao certo quanto tempo o Covid-19 fica viável e uma superfície, mas parece se comportar como os outros coronavírus, persistindo por horas ou até vários dias. Esse período é amplo e variável, pois leva em consideração o tipo de superfície, temperatura e umidade do ambiente. Pode ocorrer o contágio através do contato da pessoa com superfície contaminada pela presença do vírus, porém essa via de contaminação não é a mais comum. Não há evidências de que animais de estimação, como cães e gatos, tenham sido infectados ou transmitam o Covid-19.

SBU On-line – Quem são os grupos mais suscetíveis à contaminação e às complicações?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Até o momento, a maioria dos casos acometeu pessoas dos 30 aos 79 anos e apenas 1% dos casos ocorreu em crianças com 9 anos de idade ou menos. Os casos mais graves ocorreram em indivíduos acima dos 70 anos de idade e naqueles com patologias pré-existentes como doença cardiovascular, diabetes, doença respiratória crônica, hipertensão e neoplasia.

SBU On-line – Fala-se muito que o vírus teria alta infectividade mas uma relativa baixa mortalidade (em torno de 2%), inferior à verificada em outros surtos recentes como o Ebola ou a SARS, por exemplo. Mas o que se tem verificado é uma intensa preocupação e mobilização da mídia e de toda a sociedade em torno do assunto. O senhor acha que se justifica ou talvez haja um alarde excessivo?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Chama a atenção da imprensa mundial o número de casos rapidamente detectados de uma doença de transmissão respiratória, comportamento incerto e que é causada por um vírus da mesma família que provoca a SARS e MERS, doenças graves e com letalidade alta, e esse cenário é midiático, provocando alarde desnecessário. Os dados epidemiológicos da epidemia por Covid-19 apontam para uma doença mais branda e bem menos letal, com sintomas leves na maioria dos casos e tais dados precisam ser divulgados. O papel da mídia deve ser de alertar a população quanto aos sintomas sugestivos de infecção por coronavírus, orientar que procurem atendimento médico apenas na presença de sinais de gravidade e estimular a etiqueta respiratória.

SBU On-line – Recentemente foram veiculadas novas informações a respeito do Covid-19. Aparentemente já houve muitos casos de cura e de negativação do vírus, mas também relatos de que alguns indivíduos voltaram a ter testes positivos depois de algum tempo. Isso poderia indicar reinfecção, estado de cronicidade ou de que alguns indivíduos viessem a se tornar portadores assintomáticos?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Trata-se de um vírus novo, logo, nem todos os detalhes a respeito da fisiopatogenia são conhecidos. A princípio, aqueles infectados pelo Covid-19 estão imunes e a detecção da presença do vírus em amostras respiratórias explica-se pela metodologia empregada no diagnóstico, que é sensível e pode identificar porções inativadas do vírus.

SBU On-line – Quanto à Urologia, existe alguma repercussão já conhecida sobre o aparelho genitourinário (rins, testículos etc.)? Poderia ser transmissível sexualmente ou haver sequelas em médio e longo prazo?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Artigo científico chinês aponta que o Covid-19 pode comprometer a fertilidade masculina e causar dano renal, considerando que esse vírus usa receptores para infectar as células humanas que são altamente expressados nas células dos testículos e dos rins. É uma constatação que precisa ser avaliada com cautela. É um vírus novo e muitos aspectos da fisiopatogenia ainda estão sendo estudados. De forma prática e consistente, até o momento, o vírus foi identificado em secreções respiratórias.

SBU On-line – Quais seriam as suas recomendações sobre prevenção e como estamos com relação à possibilidade de vacinas e de medicamentos específicos?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Até o momento a prevenção está pautada no reconhecimento dos sintomas por aqueles infectados pelo Covid-19, orientando-os quanto a etiqueta respiratória, repouso, controle de temperatura e afastamento das atividades, evitando, assim, a disseminação do vírus no ambiente. Não há nenhum antiviral específico para tratar o Covid-19, nem vacina para prevenir a infecção. Há antivirais e vacinas em investigação através dos ensaios clínicos.

SBU On-line – Como estamos em termos de mobilidade global – viagens de lazer, trabalho ou estudos? Quais seriam os destinos a evitar durante esse surto ou qualquer destino no momento se torna arriscado e inseguro?

Dr. André Luiz Machado da Silva – Países que apresentam circulação sustentada do Covid-19 e, consequentemente, casos autóctones e com elevada incidência devem ser evitados. Esse cenário é dinâmico e o número de casos tende a cair após o pico da epidemia. Há uma ferramenta de acesso on-line, elaborada pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC), que alerta quais países devem ser evitados (www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/travelers/index.html).

SBU On-line – O senhor teria alguma mensagem ou recomendação final?

Dr. André Luiz Machado da Silva – As pessoas devem manter a calma quanto a essa pandemia que já se estabeleceu no Brasil. A maioria dos casos evolui com sintomas brandos e até mesmo de forma assintomática. A letalidade é baixa e atenção especial deve ser dada aos indivíduos com mais de 70 anos e/ou com comorbidades associadas. A comunidade médica precisa estar alerta quanto à possibilidade de síndrome gripal por influenza, condição que apresenta letalidade bem superior à infecção pelo Covid-19. Assim, a vacina para influenza deve ser oferecida para todos os indivíduos e nos casos de síndrome gripal com sintomas de gravidade, prescrever oseltamivir.

Dr. André Luiz Machado da Silva, infectologista do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS)

 

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