Fragmentos da História da Urologia Brasileira: confira o quinto capítulo
A história da medicina e o surgimento de nossa especialidade
Nossa profissão está a serviço da saúde e do bem-estar do ser humano e da coletividade, e, portanto, é necessário refletir como somos. Portadores de uma consciência que tudo questiona, inclusive a nós próprios, nos percebemos com duas essências, uma material e efêmera, e outra espiritual e transcendental, que nos leva a tentar se relacionar, através de diversas religiões, com a “divindade” que acreditamos que nos criou.
Mas assim como percebemos a vida como um dom, o sofrimento e a morte são interpretadas como punições pela nossa desobediência ao Criador.
Mas como surgiram os primeiros médicos? Surgiram da nossa capacidade de amar, o carĭtas do latim, e nos comover de forma empática e solidária ao vermos nosso semelhante sofrer, e de tentar ajudá-lo em caso de alguma enfermidade. Acreditando que as moléstias aconteciam por castigos divinos, algum ritual de reconciliação com a divindade também era necessária para chegar à cura. Nascemos pajés ou xamãs. E até hoje pagamos promessas em santuários para agradecer pelo retorno da saúde.
E se por um lado há em nós a vontade de curar, por outro lado há a confiante submissão do enfermo, que desnuda seu corpo e sua alma perante o médico e se entrega esperançoso aos tratamentos que lhe propomos.
É difícil permanecer imperador na presença do médico e mais difícil permanecer homem....
Nos relata Adriano, no magnífico livro de Marguerite Yurcenar.
Nosso censo moral secular dá origem ao primeiro regramento deontológico, atribuído a Hipócrates, que juramos obedecer na cerimônia de nossas formaturas.
Desde os primórdios da medicina a nós, os especialistas, é reservado o tratamento do mal da pedra, acho que podemos considerar o Juramento de Hipócrates como a nossa primeira matriz de competência:
“Não operarei de nenhum modo os padecentes de litíase (não praticarei a litotomia), deixando a prática desse ato aos profissionais”
Apesar das referências ancestrais, e do registro histórico de intervenções no aparelho gênito urinário, como os cateterismos da uretra, as postectomias rituais e as castrações em jovens cantores para que eles mantivessem os timbres femininos, nossa especialidade nasce em 1588 com a publicação do primeiro livro de urologia pelo médico espanhol Francisco Diaz. Podemos dizer que ele é o pai da urologia.
Ao longo do tempo, os tratamentos urológicos sempre tiveram o protagonismo no desenvolvimento de novos equipamentos e novas tecnologias.
No século XIX, Charrière, Beniqué e Nélaton desenvolvem novos instrumentos com o aparecimento de novos materiais como o alumínio e a borracha. Ainda neste século é realizado o primeiro procedimento endoscópico na medicina: a cistoscopia, feita por Desormeaux inclusive com a retirada endoscópica de um pólipo de uretra.
Maximilian Nitze aprimora o cistoscópio (com lentes de aumento, sistema de refrigeração a água e iluminação interna – lâmpada recém-inventada por Edison). Passam a ser possíveis a retirada sob visão de cálculos e pólipos de bexiga.
O advento dos exames radiográficos possibilita o diagnóstico de doenças urológicas com a realização das pielografias, uretrografias e das urografias excretoras.
Com o passar da História da Medicina, fica claro que o conhecimento urológico sempre foi vanguarda na tecnologia, desde a criação de materiais para litotomia, bem como no pioneirismo nos recursos endoscópicos e radiológicos.
A década de 20 do século passado foi um período de intensas transformações em nosso país. A Semana de Arte Moderna e o movimento tenentista foram eventos impactantes. E nesse cenário de eventos tão intensos é inaugurada a nossa SBU, que desde o início procurou ensinar e divulgar nossa especialidade, sem que ainda houve, nas escolas médicas, o ensino específico de nossa especialidade.
Segundo os registros em nossa Sociedade, os primeiros esforços nesse sentido foram feitos pelos Professores Estellita Lins, Augusto Paulino e Ugo Pinheiro Guimarães. Finalmente, com criação da cadeira de Urologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro em 1931, Estellita Lins foi indicado e tomou posse como professor catedrático. Foi o 1º professor de urologia no Brasil. Cumpre esclarecer que a Universidade do Rio de Janeiro havia sido criada em 1920, por decreto do Presidente Epitácio Pessoa.
Nossa especialidade foi a primeira a realizar procedimentos cirúrgicos por orifícios naturais, a partir da uretra. Foi a primeira a realizar procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos por “single port” (nefrolitotripsias per cutâneas)
No Brasil, somos a especialidade que mais realiza procedimentos laparoscópicos robóticos.
Mas a medicina avança, novas tecnologias, exames excepcionais, imagens com ótima resolução, diagnósticos precisos, estudos genéticos que nos permitem estabelecer riscos e definir tratamentos para o câncer. E a inteligência artificial que começa a rivalizar com nossa capacidade cognitiva. Todavia, o esplendor dos conhecimentos científicos, que pautam a conduta do médico de hoje no tratamento de diversas doenças, não pode subestimar a arte de cuidar dos doentes, fim último da existência da nossa profissão. Somos médicos mas sobretudo somos seres humanos.
Mas como se faz um bom médico?
Para responder cito aqui um texto, escrito por um colega médico, Dr. Manoel Mendes Silva, e que espelha meu pensamento:
“A prática da medicina e também da cirurgia é simultaneamente uma ciência e uma arte. Certamente a tendência atual é para ser cada vez mais ciência e cada vez menos arte. Pensamos, todavia, que o rigor dos conhecimentos científicos que deve pautar a conduta do médico de hoje não pode subestimar a arte de tratar os doentes, fim último da existência da profissão médica. Não podemos esquecer que, antes de sermos especialistas, fomos médicos, mas acima de tudo somos seres humanos”.
Texto: Dr. Alfredo Felix Canalini, presidente da SBU no biênio 2022/2023 e editor do livro A História da SBU
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