Mitos sobre cálculo renal

“Até 10% da população sofrerão algum sinal ou sintoma decorrente da presença de cálculo”

A formação de cálculos na via urinária e todas as consequências dessa doença são de amplo conhecimento da população. Até 10% da população sofrerão algum sinal ou sintoma decorrente da presença de cálculo.

A doença é conhecida há muitos séculos, com descrições em múmias egípcias e também por grandes nomes da história da medicina, como até o próprio Hipócrates.

Apesar de muito conhecida, muitas informações ainda são equivocadas e promovem uma desinformação também histórica. Discutiremos abaixo algumas delas.

Paciente com cálculo não pode ingerir leite e derivados

Esse deve ser o conselho de dieta mais popular, porém carrega consigo uma inverdade. Como a maioria dos cálculos são formados por algum sal de cálcio, como o oxalato de cálcio, todos os laticínios são mal julgados.

Realmente os pacientes com cálculo não devem se exceder na ingesta de leite e derivados, mas não devem se privar totalmente, pois além de serem necessários para o metabolismo normal, em alguns cenários a ingestão de cálcio previne a recorrência.

Formadores de cálculo de oxalato, por exemplo, podem ter um aumento na formação de cálculo, pois existe um equilíbrio entre a absorção intestinal de cálcio e oxalato; a restrição alimentar do primeiro promove aumento no segundo e, portanto, piora dessa desordem metabólica. Assim, prevalecem o bom senso e uma dieta balanceada e com leve redução da ingesta de laticínios.

Cálculo renal é hereditário

Até 40% dos pacientes têm antecedente familiar, o que leva a crer em um componente genético muito forte. Porém, até o momento, apenas 1% tem um componente genético bem identificado. Poucas doenças já têm todo esse componente bem estabelecido, como cistinúria, hipocitratúria, acidose tubular hereditária, entre outras. Muitas pesquisas vêm sendo desenvolvidas nessa área e certamente em um futuro próximo mais doenças terão o mecanismo genético bem estabelecido. Alguns genes já foram identificados como muito importantes nos mecanismos formadores de cálculo.

Durante a cólica renal deve-se sempre ingerir muito líquido

A hidratação é um dos pontos mais importantes na prevenção da formação de novos cálculos ureterais. Entretanto, durante o episódio de obstrução aguda do ureter por cálculo, a hiper-hidratação ou uso de diuréticos é controversa. Muitos pacientes estão desidratados pelos vômitos. Alguns urologistas acreditam que a hidratação pode aumentar a velocidade de passagem de um cálculo pelo trato urinário, enquanto outros ressaltam que a hiper-hidratação causa aumento na pressão renal, exacerbando a dor.

A hidratação está claramente indicada em pacientes com evidência clínica ou laboratorial de desidratação ou insuficiência renal. Náusea e vômitos, frequentemente associados à cólica renal, podem aumentar pela grande distensão do estômago induzida pela ingesta exacerbada de líquidos.

Certamente uma doença milenar, que afeta tão grande parte da população, sempre estará sujeita a crenças e mitos que vêm sendo passados por gerações. A divulgação adequada dos conceitos corretos vigentes e o desenvolvimento de pesquisa certamente permitem, e cada vez mais permitirão, o tratamento adequado dos pacientes com cálculo na via urinária.

Dr. Ernesto Reggio – Joinville, SC

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